Este artigo não foi escrito por IA.
Se você já organizou ou participou de um evento com tradução simultânea, provavelmente já viu uma cabine no fundo da sala.
Recentemente me dei conta de que, embora eu trabalhe com tradução simultânea há anos, raramente se mostra o que acontece nos bastidores da profissão. Quase ninguém vê tudo o que acontece antes, durante e depois de entrarmos na cabine.
Então, neste artigo, convido você para acompanhar a jornada completa de uma interpretação simultânea. Do primeiro contato com o cliente ao encerramento do evento!
A tradução simultânea começa semanas antes do evento
Muitos intérpretes conteriam o riso com essa frase. Ela é o que se estabeleceu como o padrão para que possamos ter tempo para organizar o nosso material, fazer glossário e estudá-lo. Ao meu ver, quando não tinhamos acesso às tecnologias que temos hoje, realmente, o processo de preparação era infinitamente mais laboroso. Hoje em dia já conseguimos nos preparar muito bem para um evento em alguns dias, dependendo da complexidade.
A questão é que, quando pensamos em tradução simultânea, normalmente imaginamos só o momento da cabine. Afinal, é a parte visível do trabalho. Mas, para um intérprete, a cabine é apenas a ponta do iceberg.
O primeiro contato com o cliente geralmente vem acompanhado de uma programação e (idealmente) apresentações, e às vezes ele vem acompanhado só da frase:
“Evento corporativo. Tema a definir.”
Assim desenvolvemos uma das maiores habilidades do intérprete: a investigativa. 🕵️

Porque existe uma diferença considerável entre interpretar um fórum sobre sustentabilidade e interpretar uma conferência sobre perfuração offshore em águas ultraprofundas.
E é melhor descobrir isso antes de estar sentado na cabine.
Cabine, cabininha, cabinão
Chega o dia do evento e, finalmente, entramos na cabine, torcemos pro nosso colega daquele dia não ter tomado banho de perfume, e vamos à obra.

Para muitas pessoas, a cabine é apenas aquela estrutura de vidro instalada no fundo da sala. Para nós, ela é o ambiente que torna a interpretação simultânea possível. Precisamos ouvir o palestrante com clareza e falar continuamente sem interferir na experiência do público presente no auditório.
Algumas são bem espaçosas e outras mais… aconchegantes… mas, dentro dela, sempre encontramos as centrais do intérprete (CI’s para os íntimos), que nos permitem ouvir diferentes canais de áudio e transmitir nossa voz para os participantes que acompanham o evento por meio dos receptores e fones de ouvido.

A cabine é ultracomplexa em sua simplicidade. Ela é, basicamente, um ambiente de trabalho integrado a recursos de áudio que, juntos, permitem que o intérprete se concentre na única coisa que realmente importa: a mensagem.
Por que trabalhamos em dupla?
Essa é uma das perguntas que mais recebo de clientes: por que são necessários dois intérpretes para eventos de mais de uma hora?
Uma das respostas está na própria natureza da tradução simultânea. Interpretar exige escutar, compreender, analisar, reformular e falar praticamente ao mesmo tempo. É uma atividade que demanda um nível de concentração muito elevado e que, ao longo do tempo, gera fadiga cognitiva.

Mas para muito além disso, enquanto um está com o microfone aberto, o outro continua acompanhando a apresentação, pesquisando termos, validando escolhas, e os intérpretes mais ágeis chegam a notar informações importantes que PODEM gerar uma dificuldade, pesquisar a tradução já deixar a cola pronta CASO venha a ser necessária. Aí sim! 🤌
Na prática, a interpretação simultânea é um trabalho bastante colaborativo. Embora apenas uma voz seja ouvida pelo público em determinado momento, o resultado costuma ser fruto da atenção e do esforço de duas pessoas trabalhando em conjunto.
Só acaba quanto termina
“Muito obrigado, até a próxima.” Recolhemos nossos materiais, nos despedimos da equipe e seguimos para o próximo compromisso. Muitas vezes ninguém nos agradece no microfone ou vem até a cabine nos cumprimentar. E tudo bem.
Claro que gostamos de reconhecimento. Como qualquer ser humano, ficamos felizes quando alguém comenta sobre como a interpretação foi útil ou quando um participante diz que conseguiu acompanhar uma palestra graças ao nosso trabalho.
Uma das melhores sensações que tenho no trabalho é ver cabecinhas balançando enquanto ouvem minha tradução. Você sente “olha lá, estou sendo útil, e alguém que não estaria participando o está por causa do meu trabalho!” Dá um quentinho na barriga, e pra mim isso é suficiente.
A verdade é que estamos ali para cumprir uma função específica: permitir que pessoas que falam idiomas diferentes participem da mesma conversa. Quando isso acontece de forma natural, a atenção do público permanece onde deve estar: nos palestrantes, no conteúdo e nas discussões.
Responsabilidade: de quem é, onde vive?
Queria fechar falando dele.

Quem acompanha o setor sabe que em muitos eventos a IA já está sendo usada. Não tem como ignorar isso. Em alguns contextos, elas já oferecem resultados satisfatórios e, em alguns casos, melhores do que os de profissionais pouco preparados. Isso pode soar desconfortável para alguns intérpretes, mas ignorar essa realidade não ajuda ninguém.
As perguntas para diferenciar geralmente giram em torno da qualidade. A IA traduz melhor? Pior? Mais rápido? Mais barato? Essas perguntas são importantes, mas para mim a mais importante sempre foi:
Quem assume a responsabilidade pela mensagem entregue?
Em alguns contextos, a resposta talvez seja “ninguém precisa assumir”. Uma reunião informal, um vídeo interno ou uma conversa de baixa complexidade (o famoso low-stakes) pode acomodar pequenas imprecisões sem maiores consequências. Se a tecnologia interpretar algo de forma diferente do que foi dito, provavelmente a conversa seguirá adiante, e todos estão mais que dispostos a passar aquele bom e velho PANO.

Mas também existem situações em que as palavras importam muito. Negociações comerciais, testemunhos de vítimas, auditorias, reuniões estratégicas, fóruns técnicos, discussões regulatórias ou apresentações para investidores são alguns exemplos. Nesses ambientes existe uma expectativa de precisão e, principalmente, de responsabilidade.
Quando contratamos um intérprete profissional, não estamos contratando apenas alguém que fala dois idiomas. Estamos contratando alguém que se formou, estudou o tema, se preparou e está disposto a não só responder pelo trabalho que realiza, mas a reagir e se adaptar conforme o que é apresentado ao longo do dia.
A tecnologia continuará evoluindo e certamente terá um espaço cada vez maior em nosso setor, mas, pelo menos por enquanto, ainda existe uma linha clara entre quem está e quem não está disposto a assumir responsabilidade por uma entrega de qualidade.
Ficamos por aqui~
Na Lupa, oferecemos soluções de tradução simultânea e tradução para eventos, conferências e encontros corporativos, com uma equipe preparada para entender as necessidades de cada projeto e garantir uma comunicação fluida entre todos os participantes. Se você está planejando um evento com diferentes idiomas, fale com a Lupa e vamos conversar sobre como podemos apoiar o seu próximo projeto!
Lupa Language Solutions – comercial@lupatraduz.com.br