Imagine que você foi convidado para participar de um evento internacional. Você domina inglês o suficiente para viajar, assistir a uma apresentação, pedir um café e conversar com colegas. Talvez consiga até fazer uma apresentação sem grandes dificuldades.
Agora imagine que, durante essa apresentação, alguém faça uma pergunta inesperada sobre um assunto complexo. Você precisa explicar uma posição, discordar de um argumento, fazer uma ressalva ou apresentar uma ideia que levou meses para desenvolver.
De repente, aquele inglês que “dá para o gasto” talvez já não dê tanto assim.
É nesse espaço entre conseguir se comunicar e conseguir se expressar plenamente que começa uma conversa importante sobre justiça linguística.
O que é justiça linguística?
Em termos simples, justiça linguística é pensar em como podemos criar condições mais equilibradas para que pessoas que falam línguas diferentes possam participar da vida social, profissional e institucional sem que uma língua dominante determine quem consegue falar, quem consegue ser ouvido e quem precisa fazer um esforço adicional para participar.
No contexto de eventos internacionais, essa discussão aparece de uma forma bastante concreta.
É comum presumirmos que, se uma pessoa fala inglês, espanhol ou qualquer outro idioma internacional, ela pode simplesmente utilizá-lo durante o evento. Mas existe uma diferença enorme entre conseguir conversar em uma língua e conseguir desempenhar nela exatamente o mesmo papel que desempenharia em sua língua de maior conforto.
Uma pessoa pode ter um excelente nível de inglês e ainda assim preferir apresentar uma pesquisa, negociar um contrato ou discutir uma questão delicada em português.
Isso não significa que ela não saiba inglês.
Significa que saber uma língua não é a mesma coisa que ter o mesmo repertório, espontaneidade e segurança em todas as situações.
Justiça linguística em eventos internacionais
É aqui que a interpretação entra na conversa.
Quando oferecemos interpretação simultânea em um evento, não estamos apenas ajudando alguém que “não fala inglês”. Estamos criando a possibilidade de que diferentes participantes possam escolher o idioma no qual conseguem se comunicar melhor.
Essa diferença é importante.
Pense em dois palestrantes em um mesmo painel. Um deles fala em sua língua materna. O outro fala em um segundo idioma que domina razoavelmente bem.
Os dois podem ser perfeitamente compreendidos pelo público. Mas será que os dois estão participando da conversa nas mesmas condições?
Talvez um consiga fazer uma piada espontânea, improvisar uma resposta, escolher uma palavra mais precisa ou mudar o tom de uma frase sem pensar duas vezes.
O outro pode precisar gastar parte de sua atenção procurando a palavra certa, reorganizando mentalmente uma frase ou verificando se aquilo que acabou de dizer realmente corresponde ao que queria comunicar.
O conteúdo pode até chegar ao público. Mas o esforço necessário para chegar até ele não é o mesmo.
E é justamente aí que a justiça linguística deixa de ser um conceito abstrato e passa a ter consequências práticas.
Falar bem não significa falar confortavelmente
Existe uma tendência, especialmente no mundo corporativo, de tratar proficiência linguística como uma espécie de interruptor. A pessoa fala inglês? Ótimo, então pode participar do evento em inglês. Só que comunicação humana não funciona assim.
Uma pessoa pode trabalhar em inglês há anos e ainda preferir sua língua materna para situações que exigem argumentação, negociação ou exposição de ideias complexas. Pode entender praticamente tudo o que ouve e, ainda assim, não conseguir responder com a mesma rapidez.
Isso acontece porque a linguagem é (entre muitas outras coisas) a ferramenta com a qual organizamos pensamentos, construímos argumentos, demonstramos emoções e reagimos ao que está acontecendo ao nosso redor. Quando usamos uma segunda língua, especialmente sob pressão, parte dessa energia pode ser direcionada para o próprio idioma.
Em um evento internacional, isso pode fazer diferença.
Uma pessoa que está tentando encontrar a palavra certa talvez não consiga formular a pergunta que realmente gostaria de fazer. Um especialista pode simplificar uma explicação porque não encontra a terminologia adequada. Um executivo pode evitar uma discordância porque não se sente confortável o suficiente para expressá-la.
Nada disso significa que a pessoa tenha menos conhecimento.
A justiça linguística também envolve quem já fala inglês
Existe outro aspecto interessante nessa discussão. Quando pensamos em justiça linguística, podemos cair na ideia de que a interpretação existe apenas para quem não fala inglês, mas ela também pode beneficiar quem fala inglês como segunda, terceira ou quarta língua.
Imagine um pesquisador brasileiro apresentando seu trabalho para uma plateia internacional. Ele fala inglês muito bem, mas sua pesquisa foi desenvolvida em português, sua terminologia foi construída em português e é em português que ele consegue explicar suas ideias com maior precisão.
Oferecer interpretação não diminui a capacidade linguística desse pesquisador. Pelo contrário. Permite que ele escolha a língua na qual consegue apresentar seu trabalho da melhor maneira possível.
Portanto, em vez de perguntar “ele consegue falar inglês?”, talvez devêssemos perguntar:
“Em qual idioma o meu convidado consegue contribuir melhor para esta conversa?”
Utilizar interpretação não é um sinal de incapacidade
Essa distinção também é importante para quem organiza eventos internacionais. Às vezes existe uma preocupação de que oferecer interpretação passe uma mensagem de que determinado participante “não sabe inglês”. Aqui na Lupa vemos de outra forma.
Um evento pode ter participantes que falam cinco, dez ou quinze idiomas diferentes. Oferecer interpretação não significa presumir que essas pessoas são incapazes de se comunicar, mas reconhecer que o idioma também influencia a qualidade da participação.
Fornecer interpretação é decidir pela inclusão, e, em muitos casos, pela qualidade das interações.
Um palestrante que pode falar na língua em que se sente mais confortável provavelmente terá mais liberdade para desenvolver suas ideias. Um participante que pode fazer uma pergunta em seu próprio idioma provavelmente terá mais chances de formular exatamente aquilo que gostaria de perguntar.
No fim, todos ganham acesso a uma comunicação mais completa.
E se simplesmente deixássemos todo mundo falar inglês?
É uma decisão que vemos com relativa frequência no mercado. E achamos importante dizer isso porque justiça linguística não significa que todo evento internacional precisa de interpretação em dez idiomas.
Há situações em que uma língua comum é suficiente. Há grupos em que todos se sentem confortáveis utilizando o mesmo idioma. Há eventos em que as necessidades linguísticas são muito simples. O problema aparece quando presumimos que essa solução funciona igualmente bem para todo mundo.
“Todo mundo fala inglês” pode significar que todos conseguem acompanhar uma apresentação. Mas significa que todos conseguem participar de uma discussão complexa, improvisar, negociar, discordar, fazer perguntas difíceis e expressar nuances? Depende do evento!
A justiça linguística não exige que eliminemos uma língua comum. Ela nos convida a perceber quando essa língua comum deixa de ser realmente comum e passa a representar uma vantagem para alguns participantes e um esforço adicional para outros.
O que isso significa para quem organiza um evento?
Para quem organiza eventos internacionais, talvez a primeira mudança seja simplesmente fazer uma pergunta diferente durante o planejamento. Em vez de perguntar apenas “qual é o idioma oficial do evento?”, vale perguntar:
“Em quais idiomas os participantes e palestrantes conseguem contribuir da melhor maneira?”
A partir daí, outras decisões ficam mais fáceis. Quem precisa de interpretação? Quais idiomas devem ser contemplados? A interpretação será simultânea ou consecutiva? Os palestrantes poderão escolher o idioma em que desejam falar? Como os participantes poderão fazer perguntas?
São decisões de produção, mas também são decisões sobre acesso. E talvez esse seja o ponto mais interessante da justiça linguística: Quando várias línguas estão presentes, quem são as pessoas de quem normalmente esperamos o esforço de adaptação?
A interpretação pode ser justamente o mecanismo que distribui esse esforço de maneira mais equilibrada.
Perguntas frequentes
O que é justiça linguística?
Justiça linguística é a busca por condições mais equilibradas para que pessoas que falam diferentes idiomas possam participar da sociedade, do trabalho e de espaços públicos sem que uma língua dominante limite sua participação ou imponha a elas um esforço desproporcional.
Qual é a relação entre justiça linguística e interpretação?
A interpretação permite que pessoas participem de uma conversa usando o idioma no qual conseguem se expressar com maior liberdade e precisão. Em eventos multilíngues, isso pode reduzir barreiras linguísticas e ampliar a participação.
Todo evento internacional precisa de interpretação simultânea?
Não. A necessidade depende do público, dos idiomas envolvidos, do formato do evento e do nível de conforto dos participantes com o idioma comum. A questão é avaliar se os participantes conseguem realmente participar da mesma maneira sem interpretação.